Encontrei um conhecido no restaurante hoje. Ele desenha objetos e decora lugares. Eu desenho cartões de visita. Falamos um pouco sobre os lugares onde moramos, eu no centro de São Paulo, ele no bairro do Bexiga, bem perto do centro. Falamos, além disso, sobre outras pessoas, que têm profissões parecidas com as nossas, artistas, mais ou menos.
Então ele me falou de um cara, amigo dele, que mora numa fazenda de 300 alqueires no Paraná. Este homem também é 'da nossa área' de trabalho, mas recentemente decidiu administrar a herança de família, uma fazenda que ele vendeu e trocou por esta onde está vivendo hoje. Meu amigo o tinha visitado e estava impressionado com a boa administração que ele, ex-produtor de cinema, realiza na fazenda: produz algodão, soja e trigo em regime de arrendamento, levando uma porcentagem sobre o trabalho das pessoas que dele arrendam a terra; este quinhão ele 'saca' em dinheiro, quando assim deseja. O dinheiro foi suficiente pra que ele, além da fazenda, passasse a administrar também uma produtora de cinema dentro da propriedade, tendo realizado já 4 filmes neste estúdio, um deles 'de aventura, pra concorrer com filme da Xuxa', nas palavras do meu amigo.
Pensei: acho que esse cara é exatamente o que o tal Karl Marx chama de 'capitalista'. Ou ainda, 'dono dos meios de produção'. Vejamos: ele teve sorte, e ganhou uma fazenda de herança. Ele arrenda a terra pra que outras pessoas a trabalhem, e leva uma 'parte' do produto em forma de dinheiro, ou 'lucro'.
Também é possível dizer que ele é 'um cara de sorte', como eu disse ao amigo no restaurante, ou 'um exemplo da concentração de renda e de terra no Brasil', como eu também disse ao amigo, que retrucou: 'mas ele poderia deixar a terra abandonada, ou usá-la apenas como estância de férias'. Tudo bem, ele não faz isso, o que o torna um administrador não-especulativo, mas ainda assim um concentrador de terra e de renda. Sim?
Contei essa história a uma amiga, que preocupada com a minha infrutífera culpa de classe, me disse: mas cada um nasce em uma situação no mundo. E ele poderia deixar a terra abandonada, ou usá-la apenas como estância de férias, o que não faz.
E eu? Também tenho sorte. Meu pai veio do interior, foi office-boy, chegou a gerente, virou empresário. Fez uma razoável poupança durante a vida, que agora administra, e da qual usufruo moderadamente. Inclusive através de minha propriedade, um apartamento no centro de São Paulo, que devido à minha culpa de classe, é uma quitinete.
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